Medo, loucura e sanidade…

Eu escrevo sobre terror. Gosto da forma que as palavras tomam, como se, automaticamente, passassem a ter um comportamento ameaçador. Sim, isso é um fato. Escrever sobre terror às vezes nos leva ao limite do que é aceitável e tolerável por um ser humano. E, quando finalmente chegamos a esse limite, ficamos tentados a cruzá-lo. Ficamos tentados a ver o que há além do que é aceitável, tolerável e, assim, ver as mais diversas formas que o medo pode tomar.

Bom, há quem diga que isso não é normal. Que uma mente que consegue gerar tais ideias não deve funcionar corretamente. Há quem diga que não entende como alguém pode gostar de algo assim. Há quem diga que isso é tétrico. E, claro, há quem faça a célebre pergunta “você não tem medo?”

A resposta é, ao mesmo tempo, fácil e difícil.

Eu sou capaz de assistir a um filme extremamente forte de terror, sozinho, em plena madrugada. Mas, por outro lado, eu sou absolutamente incapaz de entrar em uma piscina onde a água bata além do meu peito. Fico absurdamente inquieto ao ver uma mãe colocar um pedaço razoavelmente grande de pão na boca do seu filho ainda bebê. Aliás, a própria palavra que define quando um objeto fica atravessado na garganta de alguém é impronunciável por mim. Só de pensar nisso já fico com as mãos geladas.

Entrando no campo do “mas isso é tão inofensivo”, eu simplesmente não consigo, por exemplo, assistir a filmes como “Sempre ao seu lado”, que conta a história de um cachorro totalmente fiel ao seu dono. Embora eu tenha muita vontade de assisti-lo, simplesmente não consigo. Prefiro assistir a um filme que faça as pessoas abandonarem a sala por medo (ou até mesmo por repulsa a algumas cenas), a assistir a um filme como o do pobre cachorrinho.

Alguém pode perguntar “como é possível assistir a um filme como ‘A morte do demônio’, onde as pessoas passam boa parte do filme se desmembrando, e com litros de sangue sendo derramado, e não conseguir assistir a um filme tão, digamos, inofensivo, como ‘Sempre ao seu lado’ ?”

A resposta talvez esteja em uma palavrinha de apenas quatro letras: medo. Uma das definições da palavra medo é a seguinte:

“Estado emocional resultante da consciência de perigo ou de ameaça reais, hipotéticos ou imaginários. Fobia. Pavor. Terror.”

E aqui chegamos a um ponto interessante. Existem as ameaças reais (estar dentro de um avião e ele apresentar uma pane), as hipotéticas (e se você estiver dentro do avião e ele apresentar uma pane?) e as imaginárias (você tem certeza de que, se viajar de avião, ele apresentará uma pane).

Percebeu a diferença? Ela é extremamente sutil. E muito variável. O que é real para mim pode ser hipotético para você e imaginário para uma terceira pessoa. Ou o contrário. Ou um meio-termo. Ou, ainda, tudo isso misturado.

Assim, é fácil eu perguntar como alguém pode ter medo de um filme onde o sangue é feito de tinta vermelha e os monstros não passam de maquiagem ou de efeitos especiais. É fácil entender que nenhum desses monstros aparecerá no meio da sala tentando comer meu cérebro.

Mas o cachorrinho, meu Deus… Ele está ali. Sofrendo, sozinho, esperando pelo seu dono, que nunca mais aparecerá. Isso é real. E se fosse o meu cachorro? E se fosse eu? E se fosse você?

Agora foi possível perceber a diferença?

E não podemos esquecer que o medo caminha de mãos dadas com uma grande amiga, a loucura. Você nunca apagou a última luz da casa à noite e apressou o passo para ir para a cama? Nunca passou pela sua cabeça que algo podia tentar agarrar o seu pé por baixo do sofá? E aquele barulho estranho que você ouviu de madrugada? Foi mesmo do lado de fora da casa ou foi na sua cozinha? Será que você trancou MESMO a porta dos fundos? E o ferro de passar, está desligado? Tem certeza absoluta disso? O gás também?

Sabemos que nada sairá debaixo do sofá para agarrar nossos tornozelos. E que tudo o que estiver ali enquanto a luz está acesa continuará ali quando ela estiver apagada (o mesmo vale para o que NÃO estava ali). Mas, oras, como controlar isso? Como controlar aquela sensação de que há, sim, algo à espreita, esperando somente que você apague a maldita luz, para que possa emergir das sombras e tocar sutilmente sua perna, para primeiro fazer seu sangue gelar, e, em seguida, aparecer, fazendo seu coração praticamente parar?

E, então, você acelera o passo e chega mesmo a correr para a cama. Você se deita nela e por nada deste mundo teria coragem de sair dali. Olhar embaixo da cama? Não, isso está absolutamente fora de cogitação. Sabe-se lá o que pode estar ali escondido, quieto, esperando somente a sua curiosidade em olhar.

E, invariavelmente, amanhece. E, então, a sanidade aparece. “Como eu pude ter medo daquele jeito? Isso é loucura, nada disso existe!”, você pensa.

Não, nada daquilo existe. Você se levanta e atravessa a casa com a coragem de um caçador de vampiros. Mas o dia passará e a noite chegará novamente, fazendo com que a escuridão se arraste por cada centímetro da sua casa.

E, mais uma vez, algo espreitará embaixo da cama, atrás da porta, dentro do armário. Mais uma vez aquele quadro parecerá ter vida própria. Novamente algo se esgueirará sorrateiramente pela sala, esperando apenas você dar as costas, em direção à cama.

Certo?

Eu diria que não. Eu diria que é apenas sua mente jogando um jogo sombrio com você.

Sim. É claro que é isso. Só pode ser isso, oras. Da mesma forma que uma piscina é inofensiva, que um avião decola e pousa tão suavemente quanto um pássaro, e que um filme com um inocente cachorrinho possui classificação livre…

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